Fidélis Reis - Exemplo de Empreendedorismo
postado em 13/03/2019 as 11:08

 

“De duzentos contos como era previsto, mudamos os planos e construímos um dos mais lindos edifícios da cidade, com cinco pavimentos, a um custo superior a setecentos contos”.

Essas são as palavras, em síntese, de Fidélis Reis, em 26/07/1942, ao se referir à construção da sede da Aciu, em seu discurso de inauguração. Eleito presidente da entidade em 1938, em três anos conseguiu realizar o sonho dos empresários que, ao criar a Aciu, em 16/12/1923, tiveram que esperar por quase vinte anos para ter sua própria sede.

A ação foi possível através do apoio dos associados e empréstimos do Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Comerciários (I.A.P.C.). Por dez anos, 1938/1948, Fidélis Reis esteve à frente da Aciu, coincidindo com o período da Segunda Guerra Mundial (1939/1945), oportunidade em que a Associação se manifestou contra a ação alemã nas costas do Brasil, em 1940.

Em sua gestão foi realizado um congresso das classes produtoras com repercussão nacional. Foi nesse período que a entidade contribuiu, através de seus contatos nos governos estadual e federal, para a solução do problema de abastecimento de açúcar, provocado pela guerra, e ajudou os produtores rurais a conseguir gasolina durante a safra, numa época em que, por racionamento e escassez, a maioria dos veículos utilizavam o gasogênio.

Nascido em 4 de janeiro de 1880, em Uberaba, Fidélis Reis graduou-se como engenheiro agrônomo, aos 21 anos, na primeira e única turma do Instituto Zootécnico de nossa cidade, em 1901.

Sua primeira missão como integrante do Governo Federal, na Diretoria Geral de Povoamento, em 1907, foi a de investigar secretamente, na Argentina, por seis meses, o serviço de colonização e imigração. A atitude despertou profundamente para abordagem na sua vida política. De 1907 a 1909 foi inspetor do Serviço de Povoamento no Espírito Santo.

Um ano após, em 1910, já era inspetor agrícola federal em Belo Horizonte (MG) e, em 1911, foi eleito presidente da Sociedade Mineira de Agricultura e um dos fundadores da Escola de Engenharia, onde lecionou ao longo de cinco anos.

Na Europa, Fidélis Reis fez o curso de Ciências Físicas e Naturais na Sorbonne, seguindo posteriormente para a Suíça e Itália, países nos quais, a serviço do Governo Federal, estudou os projetos para emigração dos italianos ao Brasil. Em 1919 iniciou sua carreira política, ao ser eleito deputado estadual pelo PRM - Partido Republicano Mineiro.

Em 1921 foi eleito deputado federal, no qual através de outras três eleições, permaneceu até 23 de outubro de 1930, quando teve o mandato interrompido pela revolução que levou Getúlio Vargas ao poder e extinguiu todos os órgãos do legislativo do país.

Em sua passagem pelo legislativo federal, Fidélis Reis se distinguiu pela apresentação de inúmeros projetos de interesse nacional, como o Tratado de Santos Dumont, pelo qual os países signatários abster-se-iam de utilizar aviões como arma de guerra. Dois de seus projetos conseguiram fazer história.

O primeiro, apresentado em 1923, se relacionava à imigração. Alicerçado em suas observações feitas em viagens ao exterior, Fidélis Reis estava convicto de que o serviço de imigração teria que manter um rigoroso controle para impedir a entrada de qualquer elemento julgado “nocivo” à formação étnica, moral e psíquica da nacionalidade.

Esse projeto, que dava prioridade às famílias da Europa, em detrimento das raças negra e amarela, causou intensas polêmicas durante muitos anos e dividiu opiniões em todo o país. Todavia, o segundo projeto teve mais sucesso ao abordar a economia. Ele era destinado a criar o ensino profissionalizante obrigatório em tempo integral, sob a égide do Liceu de Artes e Ofícios, apresentado em 1922. Foi o marco inicial da transformação da economia nacional do setor industrial.

Para a sua elaboração, Fidélis Reis manteve contatos com todos os parlamentares, com a imprensa regional e nacional e até com sumidades internacionais como Albert Einstein, Henry Ford e Vladimir Lênin, com o objetivo de buscar subsídios sobre a relevância do ensino técnico e profissional. Aprovado em 1927, após cinco anos de sua difícil tramitação, a lei deixou de ser aplicada por falta de verbas.

No entanto, para concretizar seu intento, Fidélis Reis fomentou a construção dos edifícios que iriam compor o Liceu de Artes e Ofícios de Uberaba, na Praça Frei Eugênio, que contou com a contribuição financeira de personalidades do Triângulo Mineiro bem com recursos dos governos estadual e federal.

Inaugurado em 1928, o Liceu - que tem um de seus pavilhões com o nome de Henry Ford -  nunca chegou a funcionar de fato, instalando-se ali a Escola Normal de Uberaba e, posteriormente, o 4º Batalhão de Caçadores Mineiros. Foi apenas em 1942, com a criação do Senai – Serviço Nacional de Aprendizagem - que os sonhos de Fidélis Reis esboçaram a possibilidade de se concretizar. Porém, só em 1948 que a entidade ocupou as dependências que foram idealizadas para o Liceu.

As dezenas de milhões de profissionais já formados pelo Senai no território nacional, ao longo destes anos, são frutos de uma obsessiva determinação em prol do ensino profissionalizante do idealista Fidélis Reis. A participação comunitária desse grande uberabense não se restringiu apenas ao setor político.

Foi um dos fundadores do Herd Book Zebu, do qual foi presidente de 1929 a 1934, data em que esta entidade foi incorporada pela recém-criada Sociedade Rural do Triângulo Mineiro (S.R.T.M). Eleito primeiro presidente da S.R.T.M, em 1934, em sua curta gestão, criou os núcleos de Araxá e Prata, além de buscar recursos junto ao governo federal para a realização de exposições e instalação da fazenda Modelo.

Renunciou em 1935 por razões políticas. Fidélis Reis também foi vereador na Câmara Municipal de Uberaba. Entre seus companheiros estavam Boulanger Pucci, eleito prefeito em 1947, e Jorge Frange.

Em 1936 criou o Banco do Triângulo Mineiro, tendo como parceiros Alexandre Campos, Euclides Prata dos Santos, entre outros. Chegou a ter agências em várias localidades, inclusive em São Paulo. Posteriormente,  o banco foi encampado pelo Banco Nacional de Magalhães Pinto que, por sua vez, vendeu para o Banco da Lavoura de Minas Gerais, hoje, Banco Real.

Jornalista por vocação, Fidélis Reis colaborava com a imprensa local, o Jornal do Comércio do Rio de Janeiro e outras publicações, sendo reconhecido como um dos principais articulistas da cidade. De sua lavra foram publicados os livros “A política da gleba”, “País a organizar”, “Homens e problemas do Brasil”, “Política econômica”, “Ensino profissional” e “O problema emigratório e seus aspectos étnicos”.

Fidélis Reis, falecido em 1962, aos 82 anos de idade, é patrono da Academia de Letras do Triângulo Mineiro, ocupando a cadeira de nº 1. É nome de uma escola estadual da rua Vitória, no bairro Santa Marta. É nome de uma das principais avenidas de Uberaba. É um dos maiores empreendedores que a cidade e região já conheceram e figura proeminente na galeria dos vultos da nossa história.

Por Gilberto de Andrade Rezende – membro da Academia de Letras do Triângulo Mineiro, ex-presidente e conselheiro consultivo da Aciu, e ex-presidente do Cigra.

Fontes deste artigo: Aciu, Thiago Riccioppo (historiador do Museu do Zebu) e Guido Bilharinho (Do livro: Personalidades Uberabenses).

 

Fonte:
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